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03/04/2010

SÁBADO SANTO





É Sábado! É Sábado e a nossa viagem está a terminar. Mas a melhor parte da nossa viagem é que a chegada é simultaneamente uma partida muito maior… e ela está para vir.

Vamos recuar outra vez dois mil anos?

Vamos àquele Sábado que nasceu depois do dia escuro da morte do Mestre? Vamos ao coração daqueles discípulos?

Uma mistura de sentimentos. Dor, desilusão, raiva, vergonha. Dor de ver morrer o amigo que tanto amavam, desilusão por não ser o Messias verdadeiro e não reagir contra os inimigos, raiva por também não poderem fazer nada, vergonha de lhe fugirem.

Vamos também ao coração da Mãe, que vê morrer um filho inocente às mãos de gente que não tem o coração no lugar. A dor que não cabe no peito.

Uma mãe que, pela morte do filho, se torna mãe de uma Nova Humanidade. “Mulher, eis aí o Teu filho”, diz-lhe Jesus acerca do “discípulo predilecto”, João. “Eis a Tua mãe”. É impressionante a vontade que Ele tem de ver continuado o Reino que inaugurara. Agora é convosco! Queria dizer.


É neste Sábado que tudo começa a acontecer. Que, depois de o corpo estar enterrado, o Corpo vem outra vez.

É neste Sábado que os discípulos se reúnem de novo, depois da dispersão da morte, e é aqui que o Ressuscitado se vai fazer presente. É neste Sábado que se começa a saborear a notícia de que “isto” não acabou!

É dia de transição. É dia de estar ao lado. É dia de saborear uma morte que não termina em si mesma. É dia de reunir forças para gritar o que há-de vir.

É dia de Maria, a nova Mãe, e dos Apóstolos, a nova Igreja. É dia de, juntos, preparamos a Boa Notícia de que o Mestre está aí e vai rasgar todas as finitudes…



É neste Sábado Santo que a Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando na Sua paixão e na Sua morte, na Sua descida à mansão dos mortos e esperando na oração e no jejum a Sua Ressurreição.

É um dia de silêncio, meditação e reflexão...

O silêncio contemplativo da morte de Cristo é oportunidade para renovar o empenho de acolher com autenticidade a Sua Palavra!

Ao longo deste dia, vamos pegar na Sua Palavra! Vamos "comê-la", "mastigá-la", "saboreá-la"... Deixar que a Palavra entre no nosso coração, na nossa vida. Acolhamo-la na comunhão íntima com Deus!

E sejamos sempre testemunhas de que a Morte é a Festa da VIDA!

01/04/2010

QUINTA-FEIRA SANTA


Esta quaresma eu percebi o que é realmente viver. Para mim viver é Cristo! E tenho a certeza que, depois de O ter experimentado, não quero outra vida senão esta, em que cada dia existe para o preencher de relações de amor fraterno.

Amor fraterno. É precisamente disto que quero falar hoje. Como sabemos, estamos no dia a que costumamos chamar “Quinta-Feira Santa”, em que comemoramos a Confiança extrema do nosso Mestre, Jesus. Ele que, em vez de fugir às autoridades, enfrenta o que vier, não sem antes tratar de se fazer eterno.

Se calhar é um pouco estranho isto que digo. Mas de facto Jesus fez-se eterno! Pela Última Ceia, Jesus fez-se presente para sempre neste Mundo!

Gostava de falar um pouco acerca disto. É que, às vezes, reparo que o sentido do “Fazei isto em memória de mim” se deturpou um pouco ao longo dos séculos.

Já ouvimos vezes sem conta: “O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: ‘Tomai e comei; isto é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim’. Igualmente também, depois de ter ceado, tomou o cálice e disse: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; fazei isto em memória de mim todas as vezes que o beberdes” (1Cor 11,23´29).

Quando o escrevi, sabia muito bem o que estava a dizer. Mas já reparei que, quando as pessoas o ouvem, tendem a pensar que Jesus estava a dizer: “Rezai missas!”.

Não! Não é isso! Não é isso de todo! A Última Ceia significa muito mais do que isso!

Mas o que é o “isto” de que temos de fazer memória?

Eu explico: lembram-se de ouvir falar de um Jesus que se sentava à mesa com pecadores públicos e cobradores de impostos (Lc 15, 2)?

Pois bem. Realmente, as suas refeições com essa gente encurvada, os anawim, são um dos sinais mais fortes da proximidade do Reino anunciado por Jesus. Um Reino que cura, que gera perdão e amor fraterno entre as pessoas. Aquelas refeições são sinal do Reino de Deus a acontecer na história, não como uma realidade abstracta, que há-de vir, mas como algo concreto a acontecer na vida daquela gente!

Então, não nos podemos esquecer que a Última Ceia de Jesus é isso mesmo, a Última, não a única. Houve muitas outras antes! E por isso ela é como que uma síntese de todas as outras, que não pode terminar com a morte de Jesus!

Por isso “Fazei isto em memória de mim”. Continua o que eu fiz! Não deixem que isto acabe! Continua o Reino que eu fiz acontecer!

É isto que celebramos hoje. O Reino a acontecer, o Reino que nunca acaba. Hoje celebramos aquele dia em que Jesus depositou toda a sua Confiança e Esperança nos seus discípulos, homens que eram tudo menos perfeitos. E Ele sabia disso. E por isso mesmo, depositou o Reino, o seu tesouro, nas mãos deles. Agora era com eles. Agora é connosco. E é certo que a paixão pelo Reino não morreu. É certo que estamos aqui para continuá-la. É certo que Jesus tinha razão ao deixar a tarefa na mão de apaixonados.


Que estás ainda a fazer aí?

Vamos celebrar! Vamos fazer memória! Vamos fazer com que “isto” aconteça, e gritá-lo àqueles que ainda não sabem a Boa Notícia que trazemos no peito…

Vamos! Agora!


Hoje não é dia de palavras. É dia de silêncio, porque nenhuma palavra é capaz de descrever um Amor assim. Total, pleno. Maior do que nós, muito maior, ainda que nos ponhamos sempre nos píncaros.

É dia de sermos pequenos, uma vez na vida. É dia de nos pormos aos pés do nosso Mestre, de olhá-lo na cruz de madeira fria e de agradecer. Não que ele precise dos nossos jejuns, porque ama-nos acima do pecado todo que exista…

Mas precisamos de olhar para Ele e de dizer: “Obrigado, Mestre, pela entrega até às últimas consequências. Até à Morte.”.

Obrigado pelo Homem que foste, pela Pessoa que és. Guarda-nos em Ti.




PROCISSÃO DA BURRINHA